Você tem cegueira botânica? por Joelmir Mazon

Públicado em 06/03/2019
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Joelmir Augustinho Mazon
Graduado em Ciências Ambientais pela Faculdade Novo Ateneu de Guarapuava
Possui MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior pela Faculdade Guairacá
Mestre em Ciências Florestais pela Universidade Estadual do Centro-Oeste
Doutorando em Ciências Florestais pela Universidade Estadual do Centro-Oeste

 

 

 

 

Observe a imagem abaixo:

Aposto que você focou o olhar no aracnídeo na parte mais a direita do centro da imagem e não nas folhas de erva-mate ou nas grimpas de pinheiro. Se você fixou seu olhar no animalzinho em vez das plantas, saiba que isto é totalmente normal e característico do ser humano.

Estudos sugerem que em estado de percepção visual o olho humano capta dez milhões de bits de informações por segundo e, desse total, extrai cerca de 40 bits na mesma unidade de tempo. A quantidade de dados finalmente processada não passa de 16 bits por segundo. Ou seja, somente 0,00016% dos dados captados e produzidos pelos olhos é processado, nos quais nosso órgão visual prioriza aspectos como movimento, padrões salientes de cores, elementos conhecidos e seres ameaçadores. Portanto, como as plantas são estáticas, não se alimentam de humanos e confundem-se com o cenário de fundo, geralmente tendem a ser ignoradas no processamento cerebral, como provavelmente aconteceu com você, a não ser que apresentem um atrativo -adivinhem – visual e estejam em floração ou frutificação.

Apesar do caráter sensorial e psicológico, no dia a dia você percebe as plantas que te circundam ou que você consome? O porquê de aquela árvore ter flores amareladas ou o porquê daquele dente-de-leão liberar seus frutos através de um ‘guarda-chuvinha’ pelo vento; porque a grama não cresce muito no inverno, mas cresce muito no verão ou até mesmo porque o tomate produz aquela gelatininha ao redor das suas sementes.

É notório que em nosso cotidiano damos muito mais atenção a elementos não estáticos como animais e pessoas do que para plantas, ainda mais na nossa rotina urbana acelerada dos dias de hoje.  Cada dia vivemos em zonas mais urbanizadas e temos menos contato frequente com a natureza, enquanto  nossos antepassados viviam no meio rural e plantavam o próprio alimento e tinham contato pleno com a natureza.

Hoje poucos param para pensar de onde veio aquela mandioca, pois já recebemos o produto processado. Poucos se dão conta que boa parte das roupas que usamos são de matéria-prima de origem vegetal, que a coloração daquela maquiagem ou que muitos dos remédios que utilizamos são de origem vegetal ou foram sintetizados a partir de uma substância produzida por um vegetal.

Indo ainda mais a fundo, poucos se dão conta que a forma primordial de energia produzia na Terra advém de seres fotossintetizantes como algumas bactérias, algas e vegetais (que convertem energia luminosa em energia química, como glicose, produzindo o próximo ‘alimento’), sem os quais a vida seria muito diferente do que conhecemos, pois são fonte primordial de energia aos seres vivos heterotróficos (que se alimentam de outros seres), de grande parte do oxigênio que respiramos e pela inter-relação e dinâmica dos ecossistemas que estão inseridos.

Este desinteresse ou até mesmo negligência das pessoas é chamado no meio acadêmico de ‘cegueira botânica’, definida como ‘a incapacidade de reconhecermos a importância das plantas no nosso cotidiano e no nosso planeta e pela tendência de acharmos que as plantas são seres inferiores aos animais e menos merecedoras de nossa atenção’. Este desinteresse pode ser danoso, pois pode tornar as pessoas alheias à problemas ambientais, dessensibilizando estas à destruição de biomas, florestas ou até mesmo problemas pontuais, como a retirada de árvores da vegetação urbana, tornando-as indiferentes ao meio que vivem e ao valor econômico e cultural que as plantas representam.

Ok, você não é obrigado a saber tudo sobre plantas e nem trabalha com isso no seu dia a dia, mas é inegável que nas escolas e no meio acadêmico há um clássico desinteresse tanto por alunos para o tema como com estudantes e pesquisadores, sendo tratada como uma matéria chata e monótona. Eu mesmo já fui abordado por conhecidos de outras áreas e até mesmo colegas da área de biológicas que me indagaram ‘mas como você foi se interessar em estudar uma coisa TÃO SEM GRAÇA?!’. Também já lecionei em colégio e era notório a maior empolgação dos alunos pelas áreas da zoologia do que para os temas de botânica.

Esta ‘cegueira’ e desinteresse pode ser resultado não só dos aspectos sociais e psicossociais abordados anteriormente, mas também da forma com que a botânica é lecionada nos colégios e universidades, pois de fato é uma matéria complexa, recheada de nomes esquisitos (vocês já ficou à sombra de uma Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong. no Parque das Araucárias algum dia?) repassados de forma estática e maçante por professores, que muitas vezes – tragicomicamente – também sofrem de cegueira botânica.

Os temas de botânica são de conteúdo complexo e requerem aulas de grande dinamismo e contextualização entre causas e efeitos para se tornarem atraentes aos alunos, sendo muito importante também inserirmos plantas locais ou do dia a dia na contextualização destes conteúdos.  Outro aspecto importante é a aplicação de aulas práticas em laboratório, ao ar livre e espaços não-formais da educação em consonância com a teoria, de forma organizada, que também muitas vezes não é atingida pela dificuldade de planejamento na janela de horários disponível ao docente. Devido a isto, a inovação e a elaboração de estratégias didáticas inovadoras e interdisciplinares se torna essencial.

Como podemos nós professores, profissionais da biologia e estudantes de áreas afins e até mesmo o cidadão comum pode ajudar a mudar este panorama e ‘tirar as vendas’ dos olhos das pessoas em relação à botânica? É uma pergunta realmente difícil de responder. O que se discute atualmente na academia é justamente a maior atenção do conteúdo de botânica na elaboração das grades, com maior contextualização, adoção de estratégias pedagógicas mais atraentes e interdisciplinar, tornando o tema mais abrangente, digerível e atraente. A longo prazo é importante também a formação de mentores que potencializem estas estratégias para que as gerações futuras absorvam melhor estes conhecimentos acerca da botânica e disseminem não só no meio acadêmico, mas também no seu cotidiano.

Como professor de botânica, sempre busco transparecer a minha paixão pela área, de como aquela estrutura adaptativa é incrível para um ser que não anda, que não fala, que não se expressa,  pois sei que isto cativa diretamente alguns alunos. Fora de sala de aula sempre tento a voltar a imergi-los na botânica, nem que seja com o pequeno ato de postar uma foto de uma flor que achei interessante nas redes sociais. Porém, o principal objetivo quando leciono é fazê-los perceber as plantas que os rodeiam, de diferenciar um musgo de uma samambaia e o porque deles serem diferentes e também o que os relaciona. Isso é um salto para que eles se interessem, se apaixonem e tornem a botânica não um assunto maçante em suas vidas, mas um motivo para serem autodidatas nele. Também faço o exercício de mostrar estas imagens abaixo no início do curso para eles e de como gostaria que percebessem a vegetação sob outra perspectiva.

 

 

E você, também tem sintomas da tal ‘cegueira botânica’? Conte-nos um pouco na caixa de comentários abaixo! O que você sugere para mudar este panorama? Comentem!

 

 

Bibliografia utilizada e sugestões de leitura

BUCKERIDGE, M. Árvores urbanas em São Paulo: planejamento, economia e água. Estudos Avançados, v.29, p.85-101, 2015.

CHIKUCHI, A. Sobre os desafios de ensinar Botânica… <Disponível em: https://educacao.estadao.com.br/blogs/blog-dos-colegios-santa-maria/sobre-os-desafios-de-ensinar-botanica/> Acesso em: 04 mar. 2019.

FONSECA, L. R. da; RAMOS, P. O Ensino de Botânica na Licenciatura em Ciências Biológicas: uma revisão de literatura. XIENPEC. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, julho 2017 2017. Disponível em: <Disponível em: http://abrapecnet.org.br/enpec/xi-enpec/anais/resumos/R1127-1.pdf > Acesso: 04 mar. 2019.

JOBIM, K. Por que a botânica não é atrativa para os estudantes? <Disponível em: https://www.euquerobiologia.com.br/2014/11/por-que-botanica-nao-e-atrativa-para-os.html > Acesso em: 04 mar. 2019.

SALATINO, A. & BUCKERIDGE, M. Mas de que te serve saber botânica? Estudos avançados, v.30, n. 87, 2016.

URSI, S. Cegueira Botânica: Você sabe o que é? Disponível em:  http://botanicaonline.com.br/site/14/pg13.asp/> Acesso em: 04 mar. 2019.

WANDERSEE, J. H.; SCHUSSLER, E. E. Toward a theory of plant blindness. Plant Science Bulletin, v.47, p.2-9, 2002.

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