Quanto vale uma espécie? por Luciana Zago

Públicado em 28/08/2017
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Quanto vale uma espécie? A valoração de serviços ecossistêmicos e a importância de estudos de evolução, biogeografia e ecologia

 

Uma das perguntas mais ouvidas por biólogos de campo, que estudam espécies no seu ambiente natural, é: “para quê estudar estas espécies?”. Desde quando eu comecei a trabalhar com comportamento de golfinhos em 2005, passando pelo Mestrado com ecologia e comportamento de primatas, e meu Doutorado defendido esse ano (2017) com ecologia de comunidades de morcegos, eu ouvi constantemente essa pergunta. A resposta pode ser simples: porque essas espécies nos prestam diversos serviços ecossistêmicos. Mas nem todos compreendem o significado dessa resposta e sua real compreensão fica muito mais fácil quando falamos em valores monetários.

Serviços ecossistêmicos são os serviços que ecossistemas podem oferecer aos seres humanos. Por exemplo, um dos serviços mais importantes que ecossistemas florestais nos oferecem é a disponibilização de um recurso essencial para nossa vida: a água. Sem as florestas, a água na forma em que podemos consumir seria muito rara, já que são as florestas que garantem a permanência da água nos ambientes continentais. Sem as florestas, a água que passaria pelos continentes escoaria rapidamente para os oceanos, tornando-se salgada e imprópria para consumo humano. Esse serviço ecossistêmico possui um valor econômico muito alto, já que sem ele teríamos que despender investimentos altíssimos dessalinizando água do mar, por exemplo.

Serviços ecossistêmicos como a disponibilização de água, alimentos e oxigênio ou a regulação de enchentes, secas, doenças e polinização, são tão valiosos que atualmente são atribuídos valores monetários a eles. A Doutora em Ecologia e Conservação pela UFPR, Carolina Yumi Shimamoto, estimou em sua tese defendida em 2016 o potencial econômico por meio de serviços ecossistêmicos do maior remanescente de Mata Atlântica do Brasil, conhecido como região do Lagamar. Esse remanescente tem parte de sua área no território do Paraná e a estimativa foi de mais de 250 milhões de dólares por ano em serviços ecossistêmicos.

Uma estimativa concisa do valor de um ecossistema só é possível se o estudarmos muito bem. Precisamos saber que funções ecológicas cada espécie exerce. Em meu Doutorado, estudei a diversidade funcional de morcegos ao longo de todo o continente americano, ou seja, quantifiquei as diferentes funções ecológicas que eles exercem ao longo de um grande espaço biogeográfico. Nesse espaço existem morcegos polinizadores (sim, existem muitos morcegos beija-flores!), controladores de populações de insetos (como os predadores dos temidos mosquitos transmissores de malária, febre amarela, chikungunya e zika vírus!), dispersores de sementes (auxiliam o reflorestamento e, portanto, nos serviços de ecossistemas florestais), entre outros. Além da diversidade funcional, também quantifiquei a diversidade filogenética, ou seja, o quanto cada espécie distanciou-se evolutivamente das demais. E, tendo essas medidas de diversidade pude avaliar como as comunidades de morcegos podem ter mais ou menos funções ecológicas do que o esperado pela história evolutiva deles.

Com minha tese pude entender quais processos evolutivos e ecológicos podem gerar mais ou menos funções ecológicas em morcegos na América. Agora já sabemos as diferentes funções que espécies de morcegos exercem e como diferentes processos tiveram que atuar ao longo de muito tempo nesse espaço biogeográfico para gerar grandes diversidades de funções. Sabendo disso, um próximo passo pode ser responder à pergunta: quanto valem, em dólares, os serviços prestados por esses morcegos?

 

Luciana Zago da Silva
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Especialista em MBA Gestão do Conhecimento em Ensino Superior pela Faculdade Guairacá
Mestre em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Doutora em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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