Precisamos olhar para nossa Floresta com Araucária, por Joelmir Mazon

Públicado em 12/06/2018
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Joelmir Augustinho Mazon

O Brasil é um país internacionalmente conhecido por sua grande variedade de habitats e seres vivos, abrigando em seu território alguns dos principais hotspots de biodiversidade mundial (áreas de elevada biodiversidade que passaram e ainda passam por intensa degradação pela ação humana e/ou que estão em processo de extinção, como o Cerrado brasileiro e a Mata Atlântica – este último, o bioma mais degradado do Brasil devido à sua localização geográfica de maior concentração humana no país, tendo atualmente cerca 75% de sua área degradada).

Dentro da Mata Atlântica, no Sul do Brasil e fragmentos minúsculos em locais de elevada altitude no Sudeste, está localizada a Floresta com Araucária, chamada tecnicamente de “Floresta Ombrófila Mista”, onde o termo “ombrófila” vem do grego “amiga das chuvas”, pois nossa região apresenta períodos de chuva bem distribuídas ao longo do ano e sem período de seca pronunciado. O termo “mista” se dá pela mistura de floras de origem tropical e subtropical, pois podemos encontrar facilmente árvores como a pitangueira e guaviroveira (tropicais) e cataia, imbuia e canelas de climas mais frios, mas principalmente o Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia – Bertol Kuntze), espécie ícone desta floresta e que naturalmente domina o dossel desta floresta, permitindo também que outras centenas espécies de ervas, arbustos e árvores ocorram sob sua sombra.

Os pinhões – sementes do Pinheiro-do-Paraná alimentam a fauna silvestre no período de maior escassez de alimento na floresta, que é o inverno, tendo enorme importância para a fauna, além de serem muito apreciados na dieta humana e resultarem em uma alternativa de renda para pessoas da região.

Há indícios que esta formação vegetal começou a se instalar no planalto do sul do Brasil após a última Era Glacial, há cerca de 11 mil anos, tendo sua área de ocupação, em partes, também promovida direta e indiretamente por ancestrais dos indígenas da região.

A vegetação de Mata Atlântica, ocupava mais de 95% do território paranaense até o século XIX, do qual a Floresta Ombrófila Mista era representada em cerca de 1/3 desta área. O início da ocupação humana no Estado do Paraná no primeiro planalto na segunda metade do século XIX, e demais regiões nas décadas seguintes do século XX, levou a uma enorme retirada de áreas florestadas para instalação de vilas e cidades, além da abertura de áreas para agricultura e pecuária.

Porém, a principal atividade que levou à redução drástica da cobertura vegetal foi a indústria madeireira, principal atividade econômica do Estado no século XX, atingindo seu auge no período de 1950 a 1970, onde o Pinheiro-do-Paraná foi o principal produto brasileiro de exportação, no chamado “Ciclo do Pinho”, respondendo com mais de 90% da madeira remetida para fora do país.

Retirada da cobertura vegetacional no Estado do Paraná entre os séculos XIX e XX. Adaptado de Gubert-Filho (1998).

Atualmente restam pouco mais de 11% da cobertura original de Mata Atlântica e deste restante, metade desta área é representada por fragmentos de Floresta-com-Araucária, sendo que esta metade representa uma área 70% menor do que a Floresta com araucária ocupava originalmente. O desmatamento é recorrente no Paraná e entre 2015 e 2016 o estado ficou em terceiro no ranking de maior área desmatada de Mata Atlântica no Brasil neste período, com um aumento de 74% nos níveis de desmatamento no período anterior ao analisado.

À esquerda, distribuição dos ecossistemas florestais no Paraná. A Floresta Ombrófila Mista está representada em verde-claro (Fonte: Roderjan et al. 2002) e à direita, o último levantamento sobre a distribuição dos fragmentos florestais no Paraná, realizado no período de 2015 e 2016 pela Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Pode parecer um número até elevado, mas esta cobertura vegetal se apresenta em uma colcha de retalhos de fragmentos de florestas – a maioria deles, menores que 50 hectares com forte alteração de sua constituição original e grade efeito de borda – e a região de maior concentração de fragmentos é o centro-sul do Paraná, justamente uma das regiões de menor IDH do Estado. Os remanescentes de florestas com araucária ocorrem em sua grande maioria na atualidade como florestas secundárias, ou seja, fora da sua configuração original, ocorrida por retirada de árvores em diversas escalas ou até regeneração após um corte raso.

Esta fragmentação e isolamento destes fragmentos leva à problemas graves de erosão genética, ou seja, as plantas não conseguem trocar seu material genético com indivíduos mais distantes, ocorrendo elevado cruzamento entre plantas aparentadas e diminuindo a variabilidade genética, diminuindo a capacidade de suportar doenças e pressões ambientais, como as mudanças climáticas.

Estima-se que atualmente o Pinheiro-do-Paraná perdeu 50% de sua variabilidade genética original, entrando em 2006 para a categoria “criticamente em risco” na Lista Vermelha de espécies ameaçadas, com redução de mais de 97% de sua ocorrência em relação à porção original. Com a perda dos exemplares e da riqueza genética de seus componentes originais, a tarefa de recuperação e restauração ficam cada vez mais complexos e onerosos.

Mas como a degradação de nossa floresta pode ser estancada? A solução é complicada, mas ações como a manutenção de remanescentes bem conservados em unidades de conservação e RPPN’s (Reserva Particular do Patrimônio Natural), recuperação de fragmentos alterados, cumprimento da lei com a demarcação e proteção de áreas de preservação permanente (APP’S) e Reservas Legais em prosperidades particular e ligação destas por meio de corredores ecológicos permitindo o fluxo gênico são alternativas viáveis, apesar de todas as dificuldades legais e políticas para sua execução.

A chamada “conservação pelo uso” também é uma alternativa, já que as leis aplicadas atualmente, muitas vezes têm efeito contrário, como é o caso da proteção da araucária e a inflexibilidade para o seu corte, que tornou a espécie tragicamente como um estorvo para proprietários rurais que não podem manejá-la devido à grande burocracia proposta na lei.

Com a conservação pelo uso, os proprietários de áreas florestais poderiam manejar a floresta de forma racional e muitas vezes obter lucro a partir das árvores em pé, não de sua madeira, como é o caso da exploração dos pinhões. A solução não é simples, mas as ações para a preservação são urgentes, haja visto que a degradação de nossa floresta e a perca dos serviços sistêmicos que esta proporciona ainda continuam a todo o vapor.

 

Joelmir Augustinho Mazon
Graduado em Ciências Ambientais pela Faculdade Novo Ateneu de Guarapuava
MBA em Gestão de Conhecimento na Educação Superior pela Faculdade Guairacá
Mestre em Ciências Florestais pela Universidade Estadual do Centro-Oeste
Doutorando em Ciências Florestais pela Universidade Estadual do Centro-Oeste

 

FONTES:
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RODERJAN, C. V.; GALVÃO, F.; KUNIYOSHI, Y. S.; HATSCHBACH, G. G. As unidades fitogeográficas do Estado do Paraná. Ciência e Ambiente, Santa Maria, n. 24, p. 75-92, 2002.
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