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Prática odontológica em tempos de pandemia, por Wolnei Luiz Centenaro
Prática odontológica em tempos de pandemia, por Wolnei Luiz Centenaro

Wolnei Luiz Centenaro
Graduado em Odontologia pela Universidade Federal de Pelotas
Especialista em Endodontia pela Universidade de Passo Fundo
Especialista em Política, Planejamento e Gestão em Saúde Bucal pela Universidade Federal de Pernambuco
Mestre em Ecologia pela URI Erechim
Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina

 

A odontologia é dotada de peculiaridades e, assim como as demais profissões relacionadas à saúde, precisa inicialmente ser explanada para que possamos entender o momento atual.  Seus relatos históricos nos levam aos anos 3500 a.C., na antiga Mesopotâmia, documentados através de manuscritos e sendo denominada como “arte dentária”. Estes mencionavam sobre o tratamento de um “verme dentário” que normalmente era tratado com invocações e crenças religiosas. Esta introdução histórica nos parece oportuna, pois podemos relacionar que a ciência odontológica nasceu e posteriormente ganhou o mundo, chegando à América e obviamente ao Brasil, sob a égide que proporcionaria ao ser humano à cura de seus males, de suas doenças e especialmente de suas dores insuportáveis causadas pelo “verme dentário”.

Ao registrarmos esta introdução histórica da odontologia temos em mente que, assim como outras áreas da saúde, apesar de todo sofrimento e de muitas incertezas, também sofreu e sobreviveu às demais pandemias que assolaram o mundo em tempos remotos. Entre as principais podemos citar: Peste Bubônica (Peste Negra) que assolou a Europa no século XIV e que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas; Cólera que teve sua primeira epidemia global em 1817 e de tempos em tempos seu agente causador sofre mutações; Gripe Espanhola, entre 40 e 50 milhões de pessoas morreram nesta pandemia em 1918 e finalmente a Gripe (H1N1), que foi o primeiro tipo de pandemia no século XVI, causando 16 mil mortes. Nesta pequena retrospectiva de males que assolam a humanidade de tempos em tempos, não podemos desconsiderar a AIDS que surgiu a partir dos anos 80 e que durante muitos anos deixou cientistas sem respostas para uma série de indagações relativas à doença. Importante ressaltar também que com o advento da AIDS houve o recrudescimento, ou seja, o reaparecimento de doenças com sinais e sintomas com maior gravidade e intensidade, até então consideradas extintas, tais como Tuberculose, Sarampo, Blenorragia e Sífilis, doenças estas cujos microrganismos se tornaram resistentes a antibióticos. Isto sem falar em Chikungunya, Dengue, Zika e outras tantas presentes inseridas nos Descritores em Ciências da Saúde.

Novamente ressaltamos, não é objetivo desta coluna realizar um histórico de pandemias, epidemias e resistência bacteriana à antimicrobianos. Porém, para chegarmos ao objetivo desta, inevitavelmente temos que evidenciar erros cometidos no passado que poderiam ter evitado situações que estamos vivendo no presente.

Para quem é da área de saúde e que em seus currículos cursou a disciplina antes chamada Biossegurança (hoje prefere-se o termo Segurança em Saúde), conhece a célebre história de Semmelweis e a Febre Puerperal, que segundo o qual, a simples “lavagem de mãos” evitaria 90% das infecções ocorridas durante partos. Por tentar alertar o mundo científico, ele foi internado num sanatório, tendo somente muitos anos depois sua tese comprovada e aceita pela comunidade acadêmica.

Madre Tereza de Calcutá, certa vez foi questionada sobre qual a fórmula para tocar em tantos enfermos e não contrair suas doenças. Sua resposta: “Enquanto existir água, sabão e amor, não temo por este risco”. Seria muita pretensão atribuir a ocorrência destas pandemias aos fatos citados, mas temos a certeza que todas as autoridades sanitárias recomendam como regra número um para evitar a propagação da Covid-19 a correta lavagem de mãos. Portanto, acreditamos que mais cedo ou mais tarde a história nos cobra por nosso descuido com a biossegurança, não somente por parte dos profissionais de saúde, principalmente destes, mas da sociedade como um todo.

Assim como sobreviveu às demais pandemias, certamente a odontologia irá sobreviver ao momento atual. No entanto, apesar de seus avanços tecnológicos, suas práticas e conhecimentos inseridos em seus procedimentos, está enfrentando um desafio em todo o mundo, qual seja, fornecer atendimentos seguros tanto para profissionais como para aqueles que dela necessitam, em caráter emergencial ou eletivo em função do surgimento da COVID-19.

Sem dúvida, existe uma nova crise de saúde pública que ameaça o mundo com o surgimento e a disseminação do novo Coronavírus de 2019. Devido à especialidade dos serviços de saúde bucal, o risco de infecção cruzada é grave entre pacientes e profissionais de saúde bucal, pois eles trabalham em estreita proximidade com seus pacientes, empregando procedimentos que geram aerossóis. O modo de transmissão do vírus ocorre através da disseminação de gotículas e contato próximo. Embora o princípio das precauções universais seja amplamente defendido e seguido em toda a comunidade odontológica, não é o suficiente para ajudar a controlar a propagação dessa doença altamente contagiosa. Os protocolos de biossegurança foram totalmente modificados para minimizar os riscos à saúde pública. Isso inclui a identificação, isolamento, gerenciamento e relato de casos e contatos possíveis e prováveis. A avaliação do paciente deve incluir perguntas sobre viagens recentes às áreas infectadas e contatos dos pacientes, febre e sintomas de infecções respiratórias. Para manter um ambiente de prática segura, todos os cirurgiões-dentistas devem seguir medidas de precaução adicionais para poder enfrentar qualquer doença contagiosa agora e no futuro. Assim, a prevenção é a única arma disponível, para combater os potenciais efeitos pandêmicos do COVID-19 que exige vigilância rigorosa contínua até que uma provável vacina ou cura seja desenvolvida.

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