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Luto na pandemia: algumas reflexões, por Antonio Alexandre Pereira Junior

O luto é um processo doloroso, porém necessário.

09/06/2021 13h10

Desde janeiro de 2020, a propagação do novo Coronavírus transformou-se em um dos maiores desafios da humanidade. Ao classificar este momento como pandêmico, a Organização Mundial da Saúde chama atenção para o fato de que as doenças que decorrem do vírus SARS-CoV-2 possuem alto poder de contágio, sendo capaz de atingir proporções significativas da população mundial. Assim, tecnicamente, uma pandemia se caracteriza e se diferencia de uma epidemia por sua disseminação global, que ocorre quando um agente infeccioso se espalha e a maior parte das pessoas não está imune a ele.

A atual pandemia evidenciou a vulnerabilidade do mundo para as doenças infecciosas que, além do seu caráter biológico, se constitui em um fenômeno social, econômico e político. Portanto, a disseminação da doença pelo mundo exige respostas às crises que dela decorre. 

Um dos fenômenos que desafia o homem neste momento de pandemia se refere à experiência de “luto” que é vivido ou temido. Tradicionalmente, o luto é considerado como um período em que o enlutado se dedica a reorganizar sua vida após uma perda significativa. Neste período, as pessoas vivenciam diferentes sentimentos: alguns já são conhecidos devido às reminiscências ou lembranças de outras perdas vividas anteriormente; outros, são novos e estão relacionados ao significado específico que o objeto perdido possui. 

Freud (1917), ao descrever o luto o faz afirmando que este é um fenômeno que envolve um trabalho psíquico iniciado pela percepção da perda de um objeto de amor e encerrado com as mudanças no estilo de vida. Como bem afirma Freud (1917), diante da morte parte da energia psíquica que, originalmente, era utilizada para manter os laços afetivos com “o que” ou “quem” perdemos passa a ser utilizada nas recordações e estas, aos poucos, se transformam no que chamamos de saudade. Assim, para Freud (1906), as boas lembranças são as consequências positivas do trabalho de luto. Elas nos permitem perceber que somos capazes de amar mesmo na ausência do objeto de amor. 

Para ilustrar este processo recorremos ao verso de uma bela canção escrita por Maria Cadú, em homenagem à sua avó, já falecida. Diz a letra: 

“De todo amor que eu tenho
Metade foi tu que me deu
Salvando Minh’ alma da vida
Sorrindo e fazendo o meu eu” 

Além da beleza estética da canção, temos no verso reproduzido anteriormente o que Freud nos ensina, a saber: a certeza de que o amor nutrido na relação entre as pessoas é um elemento fundamental no desfecho positivo do luto. 

Portanto, o luto, apesar de ser doloroso, é um fenômeno que nos possibilita retomar nossas vidas, cuidando de nossas tarefas diárias ou mesmo buscando novos motivos para a vida. Vivenciamos o luto, quer queiramos ou não, e é por meio dele que aos poucos voltamos a nos interessar pelo mundo exterior. Para Freud (1917), é só porque somos capazes de explicar o processo de luto que ele não se configura em uma patologia. 

Com a atual situação de pandemia, estamos há mais de um ano em estado de vigilância, a cada dia uma notícia de um amigo, um parente próximo ou mesmo um amigo de um amigo vem acionando o potencial para a perda e isto exige um trabalho psíquico intenso. Para evitarmos o sofrimento mental que é a exposição constante ao luto, precisamos redobrar o autocuidado e o cuidado com o outro. Vale lembrar que o luto é um processo doloroso, porém necessário e é por meio dele que identificamos nossa capacidade de lidar com a realidade que se impõe.

Referência: 
FREUD, S. Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileiras das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1917 [1915] /1974.