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Prática odontológica em tempos de pandemia, por Wolnei Luiz Centenaro

O professor Wolnei traz relatos históricos sobre a odontologia, e também, escreve sobre as formas de manejo do paciente em tempos de pandemia.

04/05/2020 10h04

A odontologia é dotada de peculiaridades e, assim como as demais profissões relacionadas à saúde, precisa inicialmente ser explanada para que possamos entender o momento atual. Seus relatos históricos nos levam aos anos 3500 a.C., na antiga Mesopotâmia, documentados através de manuscritos e sendo denominada como “arte dentária”. Estes mencionavam sobre o tratamento de um “verme dentário” que normalmente era tratado com invocações e crenças religiosas. Esta introdução histórica nos parece oportuna, pois podemos relacionar que a ciência odontológica nasceu e posteriormente ganhou o mundo, chegando à América e obviamente ao Brasil, sob a égide que proporcionaria ao ser humano à cura de seus males, de suas doenças e especialmente de suas dores insuportáveis causadas pelo “verme dentário”.

Ao registrarmos esta introdução histórica da odontologia temos em mente que, assim como outras áreas da saúde, apesar de todo sofrimento e de muitas incertezas, também sofreu e sobreviveu às demais pandemias que assolaram o mundo em tempos remotos. Entre as principais podemos citar: Peste Bubônica (Peste Negra) que assolou a Europa no século XIV e que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas; Cólera que teve sua primeira epidemia global em 1817 e de tempos em tempos seu agente causador sofre mutações; Gripe Espanhola, entre 40 e 50 milhões de pessoas morreram nesta pandemia em 1918 e finalmente a Gripe (H1N1), que foi o primeiro tipo de pandemia no século XVI, causando 16 mil mortes. Nesta pequena retrospectiva de males que assolam a humanidade de tempos em tempos, não podemos desconsiderar a AIDS que surgiu a partir dos anos 80 e que durante muitos anos deixou cientistas sem respostas para uma série de indagações relativas à doença. Importante ressaltar também que com o advento da AIDS houve o recrudescimento, ou seja, o reaparecimento de doenças com sinais e sintomas com maior gravidade e intensidade, até então consideradas extintas, tais como Tuberculose, Sarampo, Blenorragia e Sífilis, doenças estas cujos microrganismos se tornaram resistentes a antibióticos. Isto sem falar em Chikungunya, Dengue, Zika e outras tantas presentes inseridas nos Descritores em Ciências da Saúde.

Novamente ressaltamos, não é objetivo desta coluna realizar um histórico de pandemias, epidemias e resistência bacteriana à antimicrobianos. Porém, para chegarmos ao objetivo desta, inevitavelmente temos que evidenciar erros cometidos no passado que poderiam ter evitado situações que estamos vivendo no presente.

Para quem é da área de saúde e que em seus currículos cursou a disciplina antes chamada Biossegurança (hoje prefere-se o termo Segurança em Saúde), conhece a célebre história de Semmelweis e a Febre Puerperal, que segundo o qual, a simples “lavagem de mãos” evitaria 90% das infecções ocorridas durante partos. Por tentar alertar o mundo científico, ele foi internado num sanatório, tendo somente muitos anos depois sua tese comprovada e aceita pela comunidade acadêmica.

Madre Tereza de Calcutá, certa vez foi questionada sobre qual a fórmula para tocar em tantos enfermos e não contrair suas doenças. Sua resposta: “Enquanto existir água, sabão e amor, não temo por este risco”. Seria muita pretensão atribuir a ocorrência destas pandemias aos fatos citados, mas temos a certeza que todas as autoridades sanitárias recomendam como regra número um para evitar a propagação da Covid-19 a correta lavagem de mãos. Portanto, acreditamos que mais cedo ou mais tarde a história nos cobra por nosso descuido com a biossegurança, não somente por parte dos profissionais de saúde, principalmente destes, mas da sociedade como um todo.

Assim como sobreviveu às demais pandemias, certamente a odontologia irá sobreviver ao momento atual. No entanto, apesar de seus avanços tecnológicos, suas práticas e conhecimentos inseridos em seus procedimentos, está enfrentando um desafio em todo o mundo, qual seja, fornecer atendimentos seguros tanto para profissionais como para aqueles que dela necessitam, em caráter emergencial ou eletivo em função do surgimento da COVID-19.

Sem dúvida, existe uma nova crise de saúde pública que ameaça o mundo com o surgimento e a disseminação do novo Coronavírus de 2019. Devido à especialidade dos serviços de saúde bucal, o risco de infecção cruzada é grave entre pacientes e profissionais de saúde bucal, pois eles trabalham em estreita proximidade com seus pacientes, empregando procedimentos que geram aerossóis. O modo de transmissão do vírus ocorre através da disseminação de gotículas e contato próximo. Embora o princípio das precauções universais seja amplamente defendido e seguido em toda a comunidade odontológica, não é o suficiente para ajudar a controlar a propagação dessa doença altamente contagiosa. Os protocolos de biossegurança foram totalmente modificados para minimizar os riscos à saúde pública. Isso inclui a identificação, isolamento, gerenciamento e relato de casos e contatos possíveis e prováveis. A avaliação do paciente deve incluir perguntas sobre viagens recentes às áreas infectadas e contatos dos pacientes, febre e sintomas de infecções respiratórias. Para manter um ambiente de prática segura, todos os cirurgiões-dentistas devem seguir medidas de precaução adicionais para poder enfrentar qualquer doença contagiosa agora e no futuro. Assim, a prevenção é a única arma disponível, para combater os potenciais efeitos pandêmicos do COVID-19 que exige vigilância rigorosa contínua até que uma provável vacina ou cura seja desenvolvida.


​​​​​​​Wolnei Luiz Centenaro
Graduado em Odontologia pela Universidade Federal de Pelotas
Especialista em Endodontia pela Universidade de Passo Fundo
Especialista em Política, Planejamento e Gestão em Saúde Bucal pela Universidade Federal de Pernambuco
Mestre em Ecologia pela URI Erechim
Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina